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Hoje, mais precisamente esta noite, morri.

 

Uma dor forte no peito, muita  dor,  falta de ar a boca seca uma sensação estranha de impotência como quem olha a morte nos olhos. Ela ali a olhar para mim e eu sem forças para me mexer. Na cama ao meu lado o "meu mais que tudo" dormia tranquilamente, e ,eu  sem  forças para o acordar . Pensei em gritar mas da minha boca não saia um único som, tentei tocar-lhe para que fizesse alguma coisas mas era como estivesse estática uma força superior  impedia-me de fazer qualquer movimento , (ela) cada vez mais próximo quase a tocar-me  e eu  sem forças  já quase a deixar-me ir desta para melhor.. O coração simplesmente parou exalei o último suspiro

 

Num ínfimo espaço de tempo, pensei na minha vida. No privilegio que tive por todos estes anos e em como foi generosa comigo. Logo eu a dizer isto. Eu que sempre acho que merecia bem melhor do que tenho ou alguma vez tive.

 

Seguramente o "meu mais que tudo" só ia  notar de manhã que eu  estava gelada firme e ir-te na  cama.

 Depois o (t…) era chamado as pressas e aparecia para tomar nota da ocorrência e tentar resolver a situação.

Vendo a mãe sem dar acordo de si era capaz de se apavorar que já se sabe como é que são os homens é mais garganta do que outra coisa qualquer e ver os outros morrer é canja já perante a nossa mãe a coisa complica. 

 

Decerto o "meu mais que tudo" lá me miraria de ponta à outra (ai como eu gosto  naquelas mãos de manteiga a passarem-me pela pele, enfim também a verdade é que já nem sentiria nada). Admirado de me ver ali tão hirta e  até gelada , ligaria para o 112 e depois é que ia ser um ver se te havias aqui no prédio que esta gente para coscuvilhar está por aí .

 

Mas não é que eu até acho que ia dar um bonito cadáver? Só tenho pena realmente de já não estar cá para me ver. Não queria nada  assim género santinha enfiada no caixão, como se fosse uma daquelas figurinhas de  cera de mãos cruzadas terço e cheia de flores . Aposto que a minha irmã (C...) se encarregara de escolher a roupa e não deixaria nada ao acaso, até os sapatos que são um pormenor importante . 

 

E o meu velório o meu funeral, como seria? Será que alguém ia ter coragem de dizer mal da mulher que eu sou, ou fui até à minha morte precoce e inesperada. O que é verdade é que quando alguém morre no dia do velório é promovido a "santo" por todos, pelo menos da boca para fora .

 

Haveria muitas lágrimas?
Palavras de circunstância ou verdadeira dor?

Quem iria sentir a minha falta?

Os meus filhos?  O meu mais que tudo? Os meus pais e irmãos…

Os mais novos seguramente que iam sentir uma grande diferença com a minha ausência. Enfim, terei que deixar umas indicações recomendações do tipo : conduz com cuidado não chegues muito tarde organiza-te com as roupas etc etc etc

O meu mais que tudo? Será que rapidamente arranjava uma substituta à altura?

 Os meus pais e irmãos…

E tirando umas poucas amigas … mas essas também cada uma anda  lá na sua vidinha ocupada , os maridos ,namorados, filhos, cães gatos periquitos, enfim… a verdade é que viva ou morta não fazia lá muita diferença.

 

A morte é o facto inevitável das nossas vidas. É o facto que causa mágoa aos que ficam e apaga a memória dos que desaparecem, ou para sempre, ou para os que acreditam em outra vida, que  todos os seres humanos, entram na eternidade.


Outra coisa que sabemos é que a morte é em todo mundo uma ocasião triste, mesmo quando a pessoa que morre já é velha, ou está doente.

Muitas  pessoas não acreditam que há um outro lado. A morte, para muitos, é um final definitivo, e não uma passagem.


Esta noite sonhei com a minha morte.

Vi a minha vida toda passar à minha frente como um filme, todos estavam lá...
Aos poucos fui dando conta que tinha estado a sonhar.Virei-me na cama, ter morrido foi fantasia.

Falar da morte abre verdadeiramente uma possibilidade de acesso à consciência do homem, ao conhecimento do si mesmo, o que implica necessariamente numa maior consciência do outro.

 

Sexta-feira morreu um conhecido com 50 anos hoje ao chegar do funeral uma mensagem: morreu o (....) 51 anos.

Comecei a fazer contas de cabeça.

 

(Morrer é apenas não ser visto. Morrer é a curva da estrada. )
(Fernando Pessoa)

 

 

 

publicado às 00:20


1 comentário

De semifrio a 21.09.2008

São estes momentos que nos mostram o quanto somos “pequenos” insignificantes e que não temos poder sobre absolutamente nada. Gosto do titulo que escolheste para o post. Falar da Morte é falar da Vida. Para muitos é um assunto tido como funesto, tenebroso, a maioria foge ate de pronunciar o nome “morte”, quanto
mais dissertar sobre ela.
Beijo espirituoso

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